terça-feira, 5 de outubro de 2010

A mãe do mundo

A compaixão é um amor sem alarde
Sem saber-se o sujeito que ama
Nem pretender obter
O objeto de seu amor

Na maternagem da vida
Alegra-se em ser alimento
Do ímpio e do inocente
E ainda que o sugar impune
Lhe contraia as entranhas
E lhe sangre o seio
Persiste...
Até que a dor se cure


 Há dias em que amo assim
 Como se fosse a mãe do mundo.
 E todos, todos são os filhos meus:
 O homem que me xinga no trânsito
 A moça que me destrata no balcão
 A multidão que não me vê...
 Um por um eu amo
 E acolho em meu peito
 E me regozijo com a sua existência
 Qual mãe orgulhosa de seu rebento

Nesses dias, observo o insulto de quem passa,
Mas eu não passo.
E sim, recebo em meus olhos, meu útero, meu plexo
Esse ser que se engana
Esse outro eu...
E choramos juntos toda a carência humana,
Toda a miséria e sofrimento de ser

 E teço um longo tecido de esperança
 A cobrir delicadamente o desamor
Como a ser uma pele
 Sobre um coração sem pele...
Com o atávico desejo de ser amado...

 Faço isso com um abraço imaginário
Que de tão etérico
Se faz real

E aí, não sei porque
Um estranho olha pra mim de repente
Vê que sou sua mãe,sua filha, sua família,seu mundo,seu tudo
 E se constrange...
 Coça a cabeça, olha o vazio
 Esquece por um momento a raiva, o lodo, o ódio
 E para de lutar
 Por um breve instante, relaxa...
 Como uma criança que acabou de mamar
 E agora dorme satisfeita

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